domingo, 20 de abril de 2008

Da essência do mal

Há um mês estou em dúvida se deveria publicar isto ou não. Mas hoje começa o Pessach, segundo o site da BBC.

Nos "Inválidos", em Paris, além do túmulo de Napoleão há um imenso mausoléu de guerra, com objetos das duas guerras.

Eu sabia muito bem o que iria encontrar lá. Ninguém estuda isso há 20 anos à toa, mas mesmo assim eu não sabia como seria.

A seção da Primeira Guerra foi vista aos sobressaltos. O corredor ao lado tinha as coisas da Segunda.

Museus europeus geralmente são interativos. Mapas animados, ilustrações em 3D, objetos para tocar e mexer. Mas eu não precisava de nada disso: trago comigo esses mapas há décadas.

A seção é dividida por ano: 1939, 1940 (quando a França foi invadida), 1941 e assim por diante. E, na seção dedicada a 1942, a estrela.

Não agüentei e comecei a chorar. Não deu. Foi mais forte do que eu. Amarela, escrita "Juif". Nos filmes e documentários a gente vê sempre a alemã, "Jude". Esta era a francesa, "juif".

Não sei por quanto tempo fiquei lá. Carolina me tirou e me levou para outro lugar, mas não lembro dessa parte.

Quando parei, estava em um corredor de acesso - na verdade, outra ala do museu. Sobre minha cabeça, uma V1, a primeira bomba-voadora da história. Olhei para baixo e, em tamanho natural, uma V2, de cinco metros de altura.

(No caminho de volta o ônibus passou pelo noroeste da França, onde uma placa identificava "Antigo Centro de Lançamento de V1 e V2". A Alemanha quase ganhou a guerra com essas armas. A partir desse modelo a Nasa desenhou o Saturno 5 anos depois. Só para se ter uma noção do que era.)

"Forgive, but not forget". Li essa divisa anos atrás, durante um trabalho de faculdade. Fiquei lembrando disso um bom tempo depois.

Senti vergonha do meu cachorro. Ele não compartilha a mesma humanidade que nós.